14 de fevereiro de 2017

"Não voltaste. Ainda não voltaste. E parece que desta vez foi de vez. Estarás vendido entre os outros braços das outras mulheres que te aceitam em pedaços. E eu aqui estou, em pedaços mas inteira, à espera de que percebas que isto que nos une é um privilégio tão grande que tem de exigir exclusividade. Se não voltares, não te preocupes comigo. Vou continuar a mesma apaixonada de sempre no lugar de sempre, à espera do homem de sempre. Até que chegue, lentamente, alguém que me ensine a desprogramar-te de mim, a diluir tudo o que tenho de ti por dentro do que me sustém."
_________________
Pedro Chagas Freitas in "Prometo Perder"

30 de janeiro de 2017

There.

Por vezes as palavras pulsam na violência do desejo: esse fio fino e sensível a dilacerar a pele, a dilatar os poros. Abrir o livro, encontrar-te sempre nas mesmas páginas é o principiar de uma viagem pela volúpia. É doar a minha carne aos teus sons. A impossibilidade de estar contigo agudiza-me os sentidos. Escrevo. O meu corpo quer dissolver-se nestes instantes em que a gravidade revela a sua presença. Ser névoa espessa e dourada. Habitar-te por parte completa das cores que desconheces.
Mordes-me a realidade. Recordas-me que por muito que escreva a palavra exacta será sempre a que guardas abotoada na margem dos teus lábios. Alienar-me com o texto onde és a minha - perfeita - linguagem paradisíaca.




16 de janeiro de 2017


Escreve-me uma carta.
A última das cartas.
Despeja todas as palavras que me querias dizer e não disseste.
Todos os sentimentos.
Todas as frustrações.
Todos os beijos, abraços e carícias.
Todos os dias maus e bons.
Todo o prazer e luxúria.
Todas os erros, teus e meus.
Não deixes nada por dizer, nada por sentir.
Esvazia-te no papel, nas letras, na pontuação.
Escreve-me...

Escreve-me.

11 de janeiro de 2017

Porque será tão difícil esquecer o que magoa?
Esquecemo-nos tantas vezes das coisas boas.
Mas as más... As más... essas parecem que nos assombram.
Tanto que queria um botão de ligar e desligar.
Tanto que queria esvaziar-me!

22 de junho de 2016

Não sei o que sou.
Não sei para que sirvo, se é que temos de servir para alguma coisa.
Não sei qual o meu papel aqui, se é que temos de ter algum.
Não sei se amo ou se alguma vez amei.
Não sei se vou com a maré ou se a maré vai comigo.
E nem sei onde. Se é que vou para algum lugar.
Nem sei se tenho de ir. Seja onde for. Como for. Com quem for.
Não sei nada.
Não sei com que olhos me vejo. Nem sei se me vêem sequer.
Não sei como serei aos olhos dos outros. Talvez não me vejam sequer.
Não sei.

27 de maio de 2015

"Já que tem de doer, que seja amor. Já que tem de doer - e tem de doer (por mais quer queiras acreditar, e faz bem acreditar, que não, viver tem de doer) - que seja amor.
Amor do bom, do que te leva ao mais fundo de ti, sim; mas também do que te leva ao mais alto de ti, ao mais pico de ti - à absoluta euforia, ao mais demencial orgasmo de ser. Já que tem de doer, que seja até à última gota - de suor, de esperma. De vida. Até à última gota: eis a maior das filosofias. Eis a única das filosofias."

Pedro Chagas Freitas, in "Eu Sou Deus"

15 de abril de 2015






Não sei quanto mais tempo aguento esta falta de ti.
Já te despachavas dessa tua missão impossível.
Talvez já seja hora, não?
Aliás, deve estar mais do que na hora.
Tu sabes que sim.
Sabe-lo a cada corpo que finges amar.
A cada pele que sentes que não é a minha.
De quanto mais precisas para saber que sou eu?

2 de março de 2015

"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais,
exijo demais, há em mim uma sede de infinito,
uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo,
pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada,
com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não
se sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!"

Florbela Espanca

27 de fevereiro de 2015



Tropeço nas palavras.
Nas que não te digo. Nas que não te disse.
Encontro-as espalhadas pela casa.
Estão por todo o lado. Amontoadas.
São usurpadoras do espaço.
Acumulam pó. Memórias. Imagens. Sons.
E recordam-me de ti.
Tanto.
Deveria lembrar-me de te esquecer.
Mas nem disso me lembro. Só de ti.

29 de novembro de 2014

4 de outubro de 2014

24 de setembro de 2014

"O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve
O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este abraço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?
Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar."

José Tolentino Mendonça, in "Estação Central"

16 de setembro de 2014

Resta-me abraçar-te em suspenso.
Como quando te privas do ar.
Exactamente quando inspiras fundo e permaneces assim... pendente.
Os segundos que se apartam uns dos outros.
Talvez seja isso que nos resta. Abraçar-te em suspenso.
Para que te encontres. Para que perdure. Só mais um pouco.

15 de setembro de 2014

Cobres-me os poros de uma tinta opaca.
Desenhas com as pontas dos dedos coisas imperceptíveis. Letras. Símbolos. Códigos.
Cegas-me com a luz que emanas quando o teu olhar me procura. Por entre o teu corpo. Escondida.
Acredita que me ensurdeces quando da tua boca saem melodias estranhas. Palavras esquivas. Sons obtusos.
É precisamente o me seres estranho que me dá abrigo.
E gosto. Gosto-te estranho. Louco. Difuso. Apraz-me tentar encontrar-te o fio da meada.
Seduz-me obedecer-te. Estranhamente.
E obedeço. Cumpro. Deixo que me leves. Que me coordenes os movimentos.
Ris. Rimo-nos.
Nus. Crus.
E caem por terra todas as premissas.


16 de julho de 2014

"Tocas-me na pele e eu sei que vivo, as mãos procuram o teu corpo à procura da salvação dos teus ossos."

in "Prometo Falhar", de Pedro Chagas Freitas

29 de maio de 2014

Lembras-me o cheiro a Primavera, o sorriso tímido, o passeio no jardim.
É por esta altura que o meu coração se sente mais apertado.
E por mais que em outros dias não te recorde, que te tape o sorriso com folhas de outros livros e te esconda as palavras com pautas de outras músicas, nestes... enfim... assolas-me.
Talvez nem me redescobrindo por inteiro te consiga colocar fora de mim.

28 de abril de 2014

"nem sequer telefonaste
tentava caminhar e tudo o que conseguia era bater
com a cabeça no lavatório tentava lembrar-me do meu nome
e só um rápido movimento de barbatanas sujas me aflorou a boca
esperei que viesses ao entardecer
abrisses os braços para mim
esperava que surgisses como um osso de luz reconhecível
mesmo durante a noite esperei
que me prendesses de novo para que não me enchesse o quarto
de peixes de enxofre devoradores de paredes
e tu nunca vieste
mais nada me poderia acontecer
o teu rosto chegava-me à memória como mancha de fumo
longínqua nódoa de água e sangue
nos pulsos
uma mancha e tu não chegaste

desculpa
o que te queria dizer talvez não fosse isto
a solidão turva-se-me de lágrimas
e nas pálpebras tremem visões do meu delírio
olho as fotografias de antigos desertos
corpos coerentes que fomos
bocas de papel amarelecido
onde a sede nunca encontrou a sua água
a às vezes ainda tenho sede de ti"

al berto

26 de março de 2014

"Lá porque estou vacinada contra a dengue não me vou oferecer aos mosquitos,
dizes tantas coisas só tuas e a puta da minha sorte por te ter aqui, amei-te antes de saber  e se calhar é só assim que se ama, sei lá, digo eu, que antes de ti pensava na impossibilidade de uma boca assim,
na primeira vez em que dormimos juntos esquecemo-nos de dormir,
a varanda do meu minúsculo apartamento aberta, o Inverno lá fora e um inferno feliz cá dentro,
tinhas uma caveira a rir estampada nas cuecas, ou então era o meu corpo contente que estava a rir-se e a caveira estava morta como as outras,
éramos proibidos mas amámo-nos à maneira de Deus, até que a morte nos separasse, claro está, o problema é que havia várias mortes para experimentar e é por isso que ainda aqui estamos,
quantas vezes é possível amar-te pela primeira vez?,
quero mais uma, só esta, hoje viemos para um hotel para morrermos melhor,
quero uma cama destas em casa,
e deitas-te,
gosto quando brincas aos adultos comigo, inventas expressões que ninguém faz, falas-me das maiores superficialidades do mundo, a outra que tem um blogue foi ao Brasil, há saldos na Zara,
e o poema está na voz, não no verso,
abraçámo-nos há bocado nas escadas rolantes, posso garantir-te que um casal de adolescentes teve inveja da nossa inconsequência,
quando te abraço espero um abraço, e que sejas tu,
excita-me o nosso tédio, as tuas mãos no pêlo do meu peito,
ser feliz é tão simples, não é?,
vou olhando para ti enquanto te vejo, os teus lábios parecem nuvens quando te olho por cima dos óculos e de uma frase,
lembrei-me hoje de manhã das vezes em que te fiz chorar, e chorei,
sou tão pouco para o teu tamanho, escrevo umas merdas que só eu entendo, e é inexplicável tu seres minha,
um dia candidato-me ao Nobel com a tua pele,
tocar-te fez de mim escritor, e com um bocado de sorte gente,
escrevo para te amar melhor, acho que já escrevi isto mas aqui fica de novo, o mais irónico é que enquanto escrevo sentes a minha falta,
talvez escreva também para saber que me queres, quem sabe?, mas certo certo é que escrevo antes de mais para te levar para a cama, ou pensavas que não?,
podia inventar uma Bíblia só para a minha fé por ti, mas não me livres do mal, ámen,
lá porque estou vacinada contra a dengue não me vou oferecer aos mosquitos,
repetes,
já te disse que sei de cor os teus dentes desalinhados quando sorris?,
temos só esta noite para nos amarmos esta noite,
porque precisei de ti para viver assim?,
há que escolher entre amar e escrever, e eu escolho a ti,
talvez um dia saiba de que lado estás."

Pedro Chagas Freitas