29 de maio de 2014

Lembras-me o cheiro a Primavera, o sorriso tímido, o passeio no jardim.
É por esta altura que o meu coração se sente mais apertado.
E por mais que em outros dias não te recorde, que te tape o sorriso com folhas de outros livros e te esconda as palavras com pautas de outras músicas, nestes... enfim... assolas-me.
Talvez nem me redescobrindo por inteiro te consiga colocar fora de mim.

28 de abril de 2014

"nem sequer telefonaste
tentava caminhar e tudo o que conseguia era bater
com a cabeça no lavatório tentava lembrar-me do meu nome
e só um rápido movimento de barbatanas sujas me aflorou a boca
esperei que viesses ao entardecer
abrisses os braços para mim
esperava que surgisses como um osso de luz reconhecível
mesmo durante a noite esperei
que me prendesses de novo para que não me enchesse o quarto
de peixes de enxofre devoradores de paredes
e tu nunca vieste
mais nada me poderia acontecer
o teu rosto chegava-me à memória como mancha de fumo
longínqua nódoa de água e sangue
nos pulsos
uma mancha e tu não chegaste

desculpa
o que te queria dizer talvez não fosse isto
a solidão turva-se-me de lágrimas
e nas pálpebras tremem visões do meu delírio
olho as fotografias de antigos desertos
corpos coerentes que fomos
bocas de papel amarelecido
onde a sede nunca encontrou a sua água
a às vezes ainda tenho sede de ti"

al berto

26 de março de 2014

"Lá porque estou vacinada contra a dengue não me vou oferecer aos mosquitos,
dizes tantas coisas só tuas e a puta da minha sorte por te ter aqui, amei-te antes de saber  e se calhar é só assim que se ama, sei lá, digo eu, que antes de ti pensava na impossibilidade de uma boca assim,
na primeira vez em que dormimos juntos esquecemo-nos de dormir,
a varanda do meu minúsculo apartamento aberta, o Inverno lá fora e um inferno feliz cá dentro,
tinhas uma caveira a rir estampada nas cuecas, ou então era o meu corpo contente que estava a rir-se e a caveira estava morta como as outras,
éramos proibidos mas amámo-nos à maneira de Deus, até que a morte nos separasse, claro está, o problema é que havia várias mortes para experimentar e é por isso que ainda aqui estamos,
quantas vezes é possível amar-te pela primeira vez?,
quero mais uma, só esta, hoje viemos para um hotel para morrermos melhor,
quero uma cama destas em casa,
e deitas-te,
gosto quando brincas aos adultos comigo, inventas expressões que ninguém faz, falas-me das maiores superficialidades do mundo, a outra que tem um blogue foi ao Brasil, há saldos na Zara,
e o poema está na voz, não no verso,
abraçámo-nos há bocado nas escadas rolantes, posso garantir-te que um casal de adolescentes teve inveja da nossa inconsequência,
quando te abraço espero um abraço, e que sejas tu,
excita-me o nosso tédio, as tuas mãos no pêlo do meu peito,
ser feliz é tão simples, não é?,
vou olhando para ti enquanto te vejo, os teus lábios parecem nuvens quando te olho por cima dos óculos e de uma frase,
lembrei-me hoje de manhã das vezes em que te fiz chorar, e chorei,
sou tão pouco para o teu tamanho, escrevo umas merdas que só eu entendo, e é inexplicável tu seres minha,
um dia candidato-me ao Nobel com a tua pele,
tocar-te fez de mim escritor, e com um bocado de sorte gente,
escrevo para te amar melhor, acho que já escrevi isto mas aqui fica de novo, o mais irónico é que enquanto escrevo sentes a minha falta,
talvez escreva também para saber que me queres, quem sabe?, mas certo certo é que escrevo antes de mais para te levar para a cama, ou pensavas que não?,
podia inventar uma Bíblia só para a minha fé por ti, mas não me livres do mal, ámen,
lá porque estou vacinada contra a dengue não me vou oferecer aos mosquitos,
repetes,
já te disse que sei de cor os teus dentes desalinhados quando sorris?,
temos só esta noite para nos amarmos esta noite,
porque precisei de ti para viver assim?,
há que escolher entre amar e escrever, e eu escolho a ti,
talvez um dia saiba de que lado estás."

Pedro Chagas Freitas

14 de março de 2014

PORQUE ME APETECE#3

“Podias ter fodido tudo menos a ilusão.”
Na esplanada onde nos conhecemos, o fim do mundo num fim de tarde como o fim de tarde em que a vida começou a fazer sentido.
“A maior filhadaputice do mundo é o fim de uma ilusão.”
E a cidade parece fechar-se a cada passo que dou. Já não há as tuas palavras. Já não há as tuas mãos, a pele rugosa – “são as mãos da minha alma; por dentro sou uma adorável velhinha” – das tuas mãos. E o tempo. O tempo é como uma penitência que tenho de pagar.
A cada minuto sem ti vivo toda a vida que tive contigo.
A esplanada sem o teu corpo, a esplanada sem a tua voz. A crueldade de um mundo feliz. Como se pode ser feliz quando se amou assim?
“Quando se fode a ilusão está tudo fodido.”
Disse-te que aguentava. Disse-te que o sentido da vida estava em continuar. Acreditei. Acreditei mesmo que havia um continuar. E há. Tudo o que faço é mesmo isso, apenas isso. Desesperadamente isso. Continuar. Sem ti continuo. Continuo-me.
Perder-te mudou tudo mesmo que tudo continue na mesma.
Já não sei há quanto tempo morri. Há quanto tempo a esplanada vazia. Há quanto tempo as tuas costas – “agarra-me assim, aperta-me assim, gosto de sentir o teu peito atrás de mim, o teu sexo a crescer por debaixo das calças” -, a distância das tuas costas na esplanada em que tudo se fez e tudo se desfez. Já não sei onde fica a vontade de mais um dia.
“Não penses que por te odiar não te amo.”
A ilusão. A cabra da ilusão. Deixei que caísse. Deixei que escorregasse. Deixei que a vida tomasse conta de nós. E a preguiça. A cabra da preguiça. Deixei que avançasse sobre nós, que conquistasse, dia a dia, um palmo de terreno. Deixei que a casa onde duas pessoas se amavam passasse a ser a casa onde duas pessoas moravam.
As casas não servem para morar; as casas servem para amar.
A nossa ainda aqui está. Nossa mesmo que só um homem perdido aqui persista. O teu armário intacto, as tuas dedadas no vidro como prova de que ainda existes. O espelho em que te vias depois de te vires – “gosto de saber como parece um orgasmo, o que me faz um orgasmo à pele” – e a mensagem que escrevi com lágrimas e o batom que esqueceste na mesinha de cabeceira: “Há sempre tempo para mais uma ilusão.”
Volta agora ou morre para sempre.
E se já for tarde demais esquece o relógio e anda.
Um abraço teu chega sempre a horas.

Pedro Chagas Freitas

9 de março de 2014

"A tua ausência é tão real
como os vastos campos de girassóis
secos, envelhecidos, quase mortos.
Alugo a voz e a expressão
a par de todos os espaços
deste lugar que se inicia.
Tudo isto é simples:
tenho o coração desarrumado.
Vem."

Filipa Leal

23 de fevereiro de 2014

"Se o vires, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que me sento na cama, distraída, a dobar demoras
e, sem querer, talvez embarace as linhas entre nós.
Mas que, mesmo perdendo o fio da meada por
causa dos outros laços que não desfaço, sei que o
amor dá sempre o novelo melhor da sua mão. Se

o encontrares, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que só me atraso outra vez, e ele sabe que me atraso
sempre, mas não de mais; e que os invernos que ele
não gosta de contar, mas assim mesmo conta que nos
separam, escondem a minha nuca na gola do casaco,
mas só para guardar os beijos que me deu. Se o vires,

diz-lhe que o tempo dele não passa. Fica sempre."

Maria do Rosário Pedreira

20 de fevereiro de 2014

"Falta-me o cheiro do teu suor, o brado do teu gemido. Falta-me a sombra do teu corpo, os olhos do teu sonho. Faltas-me como se me faltasse a vida. Faltas-me como se me faltasse. Tão-somente isso: faltas-me como se me faltasse."

Pedro Chagas Freitas, in "O Livro dos Loucos"

26 de janeiro de 2014

"Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere."

Adolfo Casais Monteiro

15 de novembro de 2013

"Esta manhã comecei a esquecer-me de ti.
Acordei mais cedo que nos outros dias
e com o mesmo sono.
A tua boca dizia-me "bom dia" mas não:
não o teu corpo todo como nos outros dias.
As sombras por aqui são lentas e hoje não
comprei o jornal: o mundo que se ocupe da
sua própria melancolia.
ontem. há uma semana. há muitos meses.
um ano ensina ao coração o novo ofício:
a vida toda eu hei-de esquecer-me de ti."

Rui Costa

7 de novembro de 2013

"(...)
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre - Procuro-te."

Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"

6 de novembro de 2013

"Ainda dói, ainda dói tanto,
ainda tiro uma faca do peito quando te ouço, ainda tiro uma faca do peito quando me lembro que existes,
e depois fica o buraco de um sangue que não pára,
ainda tiro uma faca do peito quando me lembras que existes,
tudo o que faço é para te esquecer,
tudo o que procuro é para não ter de encontrar-te,
ainda me dóis,
ainda me dóis tanto,
meu amor.

Se todas as frases acabam em “amor”: então é amor.
Se todas as frases acabam em amor: então é amor."

Pedro Chagas Freitas


(Não que me lembres que existes. Nem eu te ouço, mas ainda dói. Um pouco.)

28 de outubro de 2013

"Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos e o teu perfume a transpirar na minha pele.
E o corpo doeu-me onde antes os teus dedos foram aves de verão e a tua boca deixou um rasto de canções."

Maria do Rosário Pedreira

20 de outubro de 2013

"Os dedos com que me tocou
persistem sob a pele, onde a memória os move.
Tacteiam, impolutos. Tanta vezes
o suor os traz consigo da memória,
que não tenho na pele poro através
do qual eles não procurem sair quando transpiro.

A pele é o espelho da memória."

Luís Miguel Nava

16 de outubro de 2013

"talvez um dia
em que de mim já nada exista
te lembres de dois braços
que te abraçavam convulsivamente
nessa altura
deixa que os lábios te sangrem
deixa que o sangue te corra pelo peito

e as mãos
essas
abandona-as..."

Mário-Henrique Leiria

2 de outubro de 2013

"Procurar-te-ei até te encontrar
Mesmo que só te encontre em corpos
Onde tu não estás."

Herberto Hélder

19 de setembro de 2013

“No limite: fugir é o único motivo que te leva a agir. 
Só te levantas todos os dias para fugir. À fome, ao tédio, ao desejo de teres coisas. 
Só amas a mulher que amas para fugir. À precisão, à necessidade, à dor.
No limite: todos os actos são fugas.
No limite: todos os actos são cobardes.
Até este de escrever. 
Sim: estou a fugir de mim ao escrever para ti.”

Pedro Chagas Freitas, "In Sexus Veritas"

15 de setembro de 2013

Era nos teus olhos que a minha luz incidia.
E, talvez fosse na tua boca que as minhas palavras mudas morriam.
Embrulhadas entre as línguas famintas.
Lembro-me que o calor apertava por entre os poros da pele.
Talvez tenha morrido. Sim. Tantas vezes morri com o teu corpo no meu e sem noção de qual era qual e onde estavas tu ou eu.
Era nos meus olhos que a tua luz incidia.


5 de setembro de 2013

"Foi no cinema, lembras-te? (…) 
Entraste tarde, caíste, ofegante, na cadeira ao meu lado. Depois disseste-me que foi nesse momento que os nossos olhos se encontraram. Mas eu não me lembro dos teus olhos. Lembro-me sim do teu odor corporal, uma mistura excitante de rosas, canela e sexo. (…) O teu cheiro surpreendeu-me pela delicadeza e pela névoa erótica. Encostei o meu braço ao teu e comecei a transpirar. Senti uma vontade violenta de me desmoronar em ti. Não, não era fazer amor. Fazer amor não existe, porra, o amor não se faz. O amor desaba sobre nós já feito, não o controlamos – por isso o sistema se cansa tanto a substituí-lo pelo sexo, coisa gráfica, aparentemente moldável. Também não era foder, fornicar, copular – essas palavras violentas com que tentamos rebentar o amor. Como se fosse possível. Como se o amor não fosse exactamente essa fornicação metafísica que não nos diz respeito – sofremos-lhe apenas os estilhaços, que nos roubam vida e vontade. Eu queria oferecer-te o meu corpo para que o absorvesses no teu. Para que me fizesses desaparecer nos teus ossos. Eu, educado no preceito alimentar de que os rapazes comem as raparigas, depois de uma vida inteira de domínio dos talheres queria agora ser comido por ti. Queria entregar-me nas tuas mãos.

E entreguei-me – terás percebido isso? Deixei de saber quem era. Continuo a precisar de ti para existir. Para dormir."

Inês Pedrosa in "Fazes-me falta"

2 de setembro de 2013

"Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro."

Affonso Romano de Sant’Anna

22 de agosto de 2013

"Eles amputaram
As tuas coxas das minhas ancas.
Tanto quanto sei
São todos cirurgiões. Todos eles.

Eles desmantelaram-nos
Um ao outro
Tanto quanto sei
São todos engenheiros. Todos eles.

Que pena. Éramos uma invenção
Tão boa e tão amável.
Um aeroplano feito de um homem e de uma mulher.
Com asas e tudo.
Pairávamos ligeiramente por cima da terra.

Até voávamos um pouco."

Yehuda Amichai