"(...)
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre - Procuro-te."
Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"
7 de novembro de 2013
6 de novembro de 2013
"Ainda dói, ainda dói tanto,
ainda tiro uma faca do peito quando te ouço, ainda tiro uma faca do peito quando me lembro que existes,
e depois fica o buraco de um sangue que não pára,
ainda tiro uma faca do peito quando me lembras que existes,
tudo o que faço é para te esquecer,
tudo o que procuro é para não ter de encontrar-te,
ainda me dóis,
ainda me dóis tanto,
meu amor.
Se todas as frases acabam em “amor”: então é amor.
Se todas as frases acabam em amor: então é amor."
Pedro Chagas Freitas
(Não que me lembres que existes. Nem eu te ouço, mas ainda dói. Um pouco.)
(Não que me lembres que existes. Nem eu te ouço, mas ainda dói. Um pouco.)
28 de outubro de 2013
20 de outubro de 2013
16 de outubro de 2013
2 de outubro de 2013
19 de setembro de 2013
“No limite: fugir é o único motivo que te leva a agir.
Só te levantas todos os dias para fugir. À fome, ao tédio, ao desejo de teres coisas.
Só amas a mulher que amas para fugir. À precisão, à necessidade, à dor.
No limite: todos os actos são fugas.
No limite: todos os actos são cobardes.
Até este de escrever.
Sim: estou a fugir de mim ao escrever para ti.”
Pedro Chagas Freitas, "In Sexus Veritas"
15 de setembro de 2013
E, talvez fosse na tua boca que as minhas palavras mudas morriam.
Embrulhadas entre as línguas famintas.
Lembro-me que o calor apertava por entre os poros da pele.
Talvez tenha morrido. Sim. Tantas vezes morri com o teu corpo no meu e sem noção de qual era qual e onde estavas tu ou eu.
Era nos meus olhos que a tua luz incidia.
5 de setembro de 2013
"Foi no cinema, lembras-te? (…)
Entraste tarde, caíste, ofegante, na cadeira ao meu lado. Depois disseste-me que foi nesse momento que os nossos olhos se encontraram. Mas eu não me lembro dos teus olhos. Lembro-me sim do teu odor corporal, uma mistura excitante de rosas, canela e sexo. (…) O teu cheiro surpreendeu-me pela delicadeza e pela névoa erótica. Encostei o meu braço ao teu e comecei a transpirar. Senti uma vontade violenta de me desmoronar em ti. Não, não era fazer amor. Fazer amor não existe, porra, o amor não se faz. O amor desaba sobre nós já feito, não o controlamos – por isso o sistema se cansa tanto a substituí-lo pelo sexo, coisa gráfica, aparentemente moldável. Também não era foder, fornicar, copular – essas palavras violentas com que tentamos rebentar o amor. Como se fosse possível. Como se o amor não fosse exactamente essa fornicação metafísica que não nos diz respeito – sofremos-lhe apenas os estilhaços, que nos roubam vida e vontade. Eu queria oferecer-te o meu corpo para que o absorvesses no teu. Para que me fizesses desaparecer nos teus ossos. Eu, educado no preceito alimentar de que os rapazes comem as raparigas, depois de uma vida inteira de domínio dos talheres queria agora ser comido por ti. Queria entregar-me nas tuas mãos.
E entreguei-me – terás percebido isso? Deixei de saber quem era. Continuo a precisar de ti para existir. Para dormir."
Inês Pedrosa in "Fazes-me falta"
2 de setembro de 2013
"Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.
Fora, não se dão conta os desatentos.
Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.
Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro."
Affonso Romano de Sant’Anna
22 de agosto de 2013
"Eles amputaram
As tuas coxas das minhas ancas.
Tanto quanto sei
São todos cirurgiões. Todos eles.
Eles desmantelaram-nos
Um ao outro
Tanto quanto sei
São todos engenheiros. Todos eles.
Que pena. Éramos uma invenção
Tão boa e tão amável.
Um aeroplano feito de um homem e de uma mulher.
Com asas e tudo.
Pairávamos ligeiramente por cima da terra.
Até voávamos um pouco."
Yehuda Amichai
12 de agosto de 2013
"A tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos dum livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.
E assim, até à noite final
irás morrendo a cada instante
da vida que ficou fingindo vida.
Redescubro a tua morte como outros
redescobrem o amor,
porque em cada lugar, cada momento,
tu estás viva.
Viverei até à hora derradeira a tua morte.
Aos goles, lentos goles. Como se fosse
cada vez um veneno novo.
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso.
O remorso de todo o perdido em nossa vida,
coisas de antes e depois, coisas de nunca,
palavras mudas para sempre, um gesto
que sem remédio jamais teve destino,
o olhar que procura e nunca tem resposta.
O único presente verdadeiro é teres partido."
Adolfo Casais Monteiro
7 de agosto de 2013
24 de julho de 2013
"Chegámos tarde a nós.
Eu tinha a pele gasta, o coração no fio.
Tu eras um longo muro de cimento areado
em que deixava a carne inteira
a caminho do encontro.
A primavera ficava-nos sempre
à esquerda, e tu cada vez mais
dentro de mim até não sentir nada,
até estares já do outro lado.
Para trás, a cova matinal na almofada,
o postal entre a leitura suspensa,
o número a chamar de um fantasma.
Se apagar as marcas de onde pousaste
a cabeça sobre a minha vida,
se ganhar novo espaço para o fôlego,
faz-me só um favor:
nunca mais me reconheças."
Inês Dias, in Um Estranho No Meu Túmulo
22 de julho de 2013
"Tudo o que tenho para te dizer já foi dito. Porque as palavras não se separam dos corpos, porque apenas o tempo se move. Tudo o que tenho para te dizer é que ainda me faz ter-te. Exijo a dança imóvel das coisas, e depois o toque, e depois o arrepio. O idioma da carne é o poema. Tudo o que tenho para te dizer não consigo dizer. Que me arrancas aos órgãos, que me colhes de apogeu; que me dói seres-me mero fragmento e sentido inteiro. Que não há papel onde te caibas em letras. Tudo o que tenho para te dizer não se diz."
António de Deus-Rosto
17 de julho de 2013
14 de julho de 2013
“Quando a mentira entra em casa tudo o resto sai.
E na nossa casa está a mentira. Nós e a mentira. Nós e esta coisa a que chamamos amor – mas que não passará de uma necessidade fisiológica da alma.
O mais importante é chorar. O mais premente é baixar os braços. Deixá-los ceder. E depois, só depois, procurar, com recurso a outros argumentos, movê-los lá por baixo – sem ninguém notar.
Todas as mentiras são carnívoras.”
Pedro Chagas Freitas, "In Sexus Veritas"
11 de julho de 2013
10 de julho de 2013
8 de julho de 2013
"Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe."
Nuno Júdice
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe."
Nuno Júdice
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