16 de outubro de 2013

"talvez um dia
em que de mim já nada exista
te lembres de dois braços
que te abraçavam convulsivamente
nessa altura
deixa que os lábios te sangrem
deixa que o sangue te corra pelo peito

e as mãos
essas
abandona-as..."

Mário-Henrique Leiria

2 de outubro de 2013

"Procurar-te-ei até te encontrar
Mesmo que só te encontre em corpos
Onde tu não estás."

Herberto Hélder

19 de setembro de 2013

“No limite: fugir é o único motivo que te leva a agir. 
Só te levantas todos os dias para fugir. À fome, ao tédio, ao desejo de teres coisas. 
Só amas a mulher que amas para fugir. À precisão, à necessidade, à dor.
No limite: todos os actos são fugas.
No limite: todos os actos são cobardes.
Até este de escrever. 
Sim: estou a fugir de mim ao escrever para ti.”

Pedro Chagas Freitas, "In Sexus Veritas"

15 de setembro de 2013

Era nos teus olhos que a minha luz incidia.
E, talvez fosse na tua boca que as minhas palavras mudas morriam.
Embrulhadas entre as línguas famintas.
Lembro-me que o calor apertava por entre os poros da pele.
Talvez tenha morrido. Sim. Tantas vezes morri com o teu corpo no meu e sem noção de qual era qual e onde estavas tu ou eu.
Era nos meus olhos que a tua luz incidia.


5 de setembro de 2013

"Foi no cinema, lembras-te? (…) 
Entraste tarde, caíste, ofegante, na cadeira ao meu lado. Depois disseste-me que foi nesse momento que os nossos olhos se encontraram. Mas eu não me lembro dos teus olhos. Lembro-me sim do teu odor corporal, uma mistura excitante de rosas, canela e sexo. (…) O teu cheiro surpreendeu-me pela delicadeza e pela névoa erótica. Encostei o meu braço ao teu e comecei a transpirar. Senti uma vontade violenta de me desmoronar em ti. Não, não era fazer amor. Fazer amor não existe, porra, o amor não se faz. O amor desaba sobre nós já feito, não o controlamos – por isso o sistema se cansa tanto a substituí-lo pelo sexo, coisa gráfica, aparentemente moldável. Também não era foder, fornicar, copular – essas palavras violentas com que tentamos rebentar o amor. Como se fosse possível. Como se o amor não fosse exactamente essa fornicação metafísica que não nos diz respeito – sofremos-lhe apenas os estilhaços, que nos roubam vida e vontade. Eu queria oferecer-te o meu corpo para que o absorvesses no teu. Para que me fizesses desaparecer nos teus ossos. Eu, educado no preceito alimentar de que os rapazes comem as raparigas, depois de uma vida inteira de domínio dos talheres queria agora ser comido por ti. Queria entregar-me nas tuas mãos.

E entreguei-me – terás percebido isso? Deixei de saber quem era. Continuo a precisar de ti para existir. Para dormir."

Inês Pedrosa in "Fazes-me falta"

2 de setembro de 2013

"Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.
Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro."

Affonso Romano de Sant’Anna

22 de agosto de 2013

"Eles amputaram
As tuas coxas das minhas ancas.
Tanto quanto sei
São todos cirurgiões. Todos eles.

Eles desmantelaram-nos
Um ao outro
Tanto quanto sei
São todos engenheiros. Todos eles.

Que pena. Éramos uma invenção
Tão boa e tão amável.
Um aeroplano feito de um homem e de uma mulher.
Com asas e tudo.
Pairávamos ligeiramente por cima da terra.

Até voávamos um pouco."

Yehuda Amichai

12 de agosto de 2013

"A tua morte é sempre nova em mim.
Não amadurece. Não tem fim.
Se ergo os olhos dum livro, de repente
tu morreste.
Acordo, e tu morreste.
Sempre, cada dia, cada instante,
a tua morte é nova em mim,
sempre impossível.

E assim, até à noite final
irás morrendo a cada instante
da vida que ficou fingindo vida.
Redescubro a tua morte como outros
redescobrem o amor,
porque em cada lugar, cada momento,
tu estás viva.

Viverei até à hora derradeira a tua morte.
Aos goles, lentos goles. Como se fosse
cada vez um veneno novo.
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso.
O remorso de todo o perdido em nossa vida,
coisas de antes e depois, coisas de nunca,
palavras mudas para sempre, um gesto
que sem remédio jamais teve destino,
o olhar que procura e nunca tem resposta.

O único presente verdadeiro é teres partido."

Adolfo Casais Monteiro

7 de agosto de 2013

"Há sonhos que devem permanecer nas gavetas, nos cofres, trancados até o nosso fim.
E por isso passíveis de serem sonhados a vida inteira."

Hilda Hilst

24 de julho de 2013

"Chegámos tarde a nós.
Eu tinha a pele gasta, o coração no fio.
Tu eras um longo muro de cimento areado
em que deixava a carne inteira
a caminho do encontro.

A primavera ficava-nos sempre
à esquerda, e tu cada vez mais
dentro de mim até não sentir nada,
até estares já do outro lado.
Para trás, a cova matinal na almofada,
o postal entre a leitura suspensa,
o número a chamar de um fantasma.

Se apagar as marcas de onde pousaste
a cabeça sobre a minha vida,
se ganhar novo espaço para o fôlego,
faz-me só um favor:
nunca mais me reconheças."

Inês Dias, in Um Estranho No Meu Túmulo

22 de julho de 2013

"Tudo o que tenho para te dizer já foi dito. Porque as palavras não se separam dos corpos, porque apenas o tempo se move. Tudo o que tenho para te dizer é que ainda me faz ter-te. Exijo a dança imóvel das coisas, e depois o toque, e depois o arrepio. O idioma da carne é o poema. Tudo o que tenho para te dizer não consigo dizer. Que me arrancas aos órgãos, que me colhes de apogeu; que me dói seres-me mero fragmento e sentido inteiro. Que não há papel onde te caibas em letras. Tudo o que tenho para te dizer não se diz."

António de Deus-Rosto

17 de julho de 2013

"agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor

agora tu eras como o tempo
despido dos dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente

lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor"

valter hugo mãe

14 de julho de 2013

“Quando a mentira entra em casa tudo o resto sai.
E na nossa casa está a mentira. Nós e a mentira. Nós e esta coisa a que chamamos amor – mas que não passará de uma necessidade fisiológica da alma. 
O mais importante é chorar. O mais premente é baixar os braços. Deixá-los ceder. E depois, só depois, procurar, com recurso a outros argumentos, movê-los lá por baixo – sem ninguém notar. 
Todas as mentiras são carnívoras.”

Pedro Chagas Freitas, "In Sexus Veritas"

11 de julho de 2013

"Há dias assim
em que acordamos e percebemos tudo
como se tudo nos estivesse imensamente próximo
como se cada dia nascesse e morresse num abraço
como se a vida coubesse num poema."

José Rui Teixeira

10 de julho de 2013






Ando assim.
Em versão feminina, claro, mas assim.
Sem nada para dizer e com tanto para gritar.










Foto de Jorge Vasconcelos

8 de julho de 2013

"Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe."

Nuno Júdice

3 de julho de 2013

Inevitavelmente...




Esculpi-te no meu corpo.
Desenhei-te na minha pele.
Fotografei-te na memória.
Fatalmente.

2 de julho de 2013

"Foi sempre tão incerto o caminho até ti:
tantos meses de pedras e de espinhos, de
maus presságios, de ramos que rasgavam a
carne como forquilhas, de vozes que me
diziam que não valia a pena continuar, que
o teu olhar era já uma mentira; e o meu

coração sempre tão surdo para tudo isso,
sempre a gritar outra coisa mais alto para 
que as pernas não pudessem recordar as
suas feridas, para que os pés ignorassem
as penas da viagem e avançassem todos
os dias mais um pouco, esse pouco que
era tudo para te alcançar. Foi por isso que,

ao contrário de ti, não quis dormir nessa
noite: os teus beijos ainda estavam todos
na minha boca e o desenho das tuas mãos
na minha pele. Eu sabia que adormecer
era deixar de sentir, e não queria perder os
teus gestos no meu corpo um segundo que
fosse. Então sentei-me na cama a ver-te
dormir, e sorri como nunca sorrira antes
dessa noite, sorri tanto. Mas tu falaste de
repente do meio do teu sono, estendeste o
braço na minha direcção e chamaste baixinho.
Chamaste duas vezes. Ou três. E sempre tão
baixinho. Mas nenhuma foi pelo meu nome."

Maria do Rosário Pedreira

28 de junho de 2013

“Pior do que a morte só matar um amor dentro de nós. E até eu o sei. Até eu o sinto. E é esse o maior dos méritos que ela tem. Ou o maior dos problemas que ela me deixou. O mais perigoso de todos os legados que ela me vai deixar quando eu tiver a força para a deixar. O legado do sentir. Até eu aprendi a sentir quando ela me ensinou a senti-la. 
Ninguém é mais cruel do que aquele que ensina a sentir tudo e depois só oferece uma parte do que sente.”

Pedro Chagas Freitas

24 de junho de 2013

PORQUE ME APETECE#42

"Onde se encontra o que nos perdemos?
O que não te perdoo é fazeres-me feliz. Amar quem nos faz infelizes é uma desgraça; mas amar quem nos faz felizes é uma tragédia. O fim do mundo à mercê de uma só pessoa. É quando te olho que nem a justiça acredita no livre arbítrio. 
Há o perigo de uma morte eterna quando se ama assim. 
Na manhã primeira da tua ausência, até os gatos se esqueceram de miar, deitados no chão como se soubessem que as tuas mãos já não chegam, e a pele que te pediu toda a noite rejeita o sol, porque nada do que dá luz consegue tirar-me uma escuridão assim. Por toda a casa estás tu em toda a casa, o chão com os teus dedos (tão pequenos, os teus dedos, quando caminhavas em silêncio de madrugada, e tudo o que queria era olhar-te a andar de pés descalços ao centro de um mundo que não soubemos guardar), a casa de banho com os teus produtos de limpeza, o teu perfume, o teu champô; estás em todo o lado, permaneces aqui deitada na cama onde me deito contigo, haja quem houver ao meu lado, todas as noites de todos os dias. E é quando te cheiro que acredito que até o nariz sabe o que é amor. 
Amo-te com todos os sentidos do meu corpo. 
Ainda me levanto a acreditar em nós. E se houver uma morte justa é um para o outro que morreremos. “E morreram felizes para sempre” é o que ainda espero da vida.
Não fiques convencida mas acho que és a minha morte favorita. 
Procuro-te em cada mulher que me procura, e em cada uma há um pedaço de ti, um sorriso aqui, uma expressão ali, e é assim que te amo aos pedaços, que te consumo às peças, desesperado e lento, em busca de sensações pequenas que juntas te tragam inteira. Amar é muitas vezes juntar fragmentos para conseguir um todo que não existe, que não voltará a existir, mas que ainda assim continua a existir e nunca deixará de existir. Não sei se é possível a vida depois de ti, mas sei que enquanto houver corpos que te tragam aos poucos vou conseguir aguentar. Volta para sempre ou nunca mais apareças. Imaginar que um dia voltas só me faz imaginar que um dia partes. E eu posso aguentar tudo menos outra vez as tuas costas a virarem, outra vez a sensação de que é possível um corpo ficar oco por dentro quando se perde um amor tão pesado. 
Posso aguentar tudo menos tu inteira a levares-me inteiro. 
Quero a vida toda a amar os teus braços. Quero as conversas sem sentido na cama antes de deitar, o prazer eterno de nos sabermos para sempre; e nada do que é material nos consegue tocar, porque o que nos junta são certezas e nenhuma dúvida sabe qual é a nossa morada. Sabes que és de mim como és da vida, e que por mais afastada que queiras estar só te encontras quando me pertences. Despeço-me de ti todas as noites, imagino-te no teu ritual de adormecimento (mãos entrelaçados como se pedisses ao céu que te desse mais um dia, só mais um dia, de vida para gozar), antes de te abraçares a um qualquer corpo que sabes que sou eu e que eu sei que somos nós. Quando estiveres farta de sofrer podes voltar. E até lá livra-te de não teres todos os orgasmos possíveis, para que regresses pura ao princípio do nosso tempo. 
Somos o orgasmo primordial sempre que regressamos aos corpos. 
E se a imortalidade existir já vem depois de nós."

Pedro Chagas Freitas


(Ficam estas palavras a bailar-me por dentro... Posso aguentar tudo menos tu inteiro a levares-me inteira.)