7 de agosto de 2013

"Há sonhos que devem permanecer nas gavetas, nos cofres, trancados até o nosso fim.
E por isso passíveis de serem sonhados a vida inteira."

Hilda Hilst

24 de julho de 2013

"Chegámos tarde a nós.
Eu tinha a pele gasta, o coração no fio.
Tu eras um longo muro de cimento areado
em que deixava a carne inteira
a caminho do encontro.

A primavera ficava-nos sempre
à esquerda, e tu cada vez mais
dentro de mim até não sentir nada,
até estares já do outro lado.
Para trás, a cova matinal na almofada,
o postal entre a leitura suspensa,
o número a chamar de um fantasma.

Se apagar as marcas de onde pousaste
a cabeça sobre a minha vida,
se ganhar novo espaço para o fôlego,
faz-me só um favor:
nunca mais me reconheças."

Inês Dias, in Um Estranho No Meu Túmulo

22 de julho de 2013

"Tudo o que tenho para te dizer já foi dito. Porque as palavras não se separam dos corpos, porque apenas o tempo se move. Tudo o que tenho para te dizer é que ainda me faz ter-te. Exijo a dança imóvel das coisas, e depois o toque, e depois o arrepio. O idioma da carne é o poema. Tudo o que tenho para te dizer não consigo dizer. Que me arrancas aos órgãos, que me colhes de apogeu; que me dói seres-me mero fragmento e sentido inteiro. Que não há papel onde te caibas em letras. Tudo o que tenho para te dizer não se diz."

António de Deus-Rosto

17 de julho de 2013

"agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor

agora tu eras como o tempo
despido dos dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente

lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor"

valter hugo mãe

14 de julho de 2013

“Quando a mentira entra em casa tudo o resto sai.
E na nossa casa está a mentira. Nós e a mentira. Nós e esta coisa a que chamamos amor – mas que não passará de uma necessidade fisiológica da alma. 
O mais importante é chorar. O mais premente é baixar os braços. Deixá-los ceder. E depois, só depois, procurar, com recurso a outros argumentos, movê-los lá por baixo – sem ninguém notar. 
Todas as mentiras são carnívoras.”

Pedro Chagas Freitas, "In Sexus Veritas"

11 de julho de 2013

"Há dias assim
em que acordamos e percebemos tudo
como se tudo nos estivesse imensamente próximo
como se cada dia nascesse e morresse num abraço
como se a vida coubesse num poema."

José Rui Teixeira

10 de julho de 2013






Ando assim.
Em versão feminina, claro, mas assim.
Sem nada para dizer e com tanto para gritar.










Foto de Jorge Vasconcelos

8 de julho de 2013

"Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe."

Nuno Júdice

3 de julho de 2013

Inevitavelmente...




Esculpi-te no meu corpo.
Desenhei-te na minha pele.
Fotografei-te na memória.
Fatalmente.

2 de julho de 2013

"Foi sempre tão incerto o caminho até ti:
tantos meses de pedras e de espinhos, de
maus presságios, de ramos que rasgavam a
carne como forquilhas, de vozes que me
diziam que não valia a pena continuar, que
o teu olhar era já uma mentira; e o meu

coração sempre tão surdo para tudo isso,
sempre a gritar outra coisa mais alto para 
que as pernas não pudessem recordar as
suas feridas, para que os pés ignorassem
as penas da viagem e avançassem todos
os dias mais um pouco, esse pouco que
era tudo para te alcançar. Foi por isso que,

ao contrário de ti, não quis dormir nessa
noite: os teus beijos ainda estavam todos
na minha boca e o desenho das tuas mãos
na minha pele. Eu sabia que adormecer
era deixar de sentir, e não queria perder os
teus gestos no meu corpo um segundo que
fosse. Então sentei-me na cama a ver-te
dormir, e sorri como nunca sorrira antes
dessa noite, sorri tanto. Mas tu falaste de
repente do meio do teu sono, estendeste o
braço na minha direcção e chamaste baixinho.
Chamaste duas vezes. Ou três. E sempre tão
baixinho. Mas nenhuma foi pelo meu nome."

Maria do Rosário Pedreira

28 de junho de 2013

“Pior do que a morte só matar um amor dentro de nós. E até eu o sei. Até eu o sinto. E é esse o maior dos méritos que ela tem. Ou o maior dos problemas que ela me deixou. O mais perigoso de todos os legados que ela me vai deixar quando eu tiver a força para a deixar. O legado do sentir. Até eu aprendi a sentir quando ela me ensinou a senti-la. 
Ninguém é mais cruel do que aquele que ensina a sentir tudo e depois só oferece uma parte do que sente.”

Pedro Chagas Freitas

24 de junho de 2013

PORQUE ME APETECE#42

"Onde se encontra o que nos perdemos?
O que não te perdoo é fazeres-me feliz. Amar quem nos faz infelizes é uma desgraça; mas amar quem nos faz felizes é uma tragédia. O fim do mundo à mercê de uma só pessoa. É quando te olho que nem a justiça acredita no livre arbítrio. 
Há o perigo de uma morte eterna quando se ama assim. 
Na manhã primeira da tua ausência, até os gatos se esqueceram de miar, deitados no chão como se soubessem que as tuas mãos já não chegam, e a pele que te pediu toda a noite rejeita o sol, porque nada do que dá luz consegue tirar-me uma escuridão assim. Por toda a casa estás tu em toda a casa, o chão com os teus dedos (tão pequenos, os teus dedos, quando caminhavas em silêncio de madrugada, e tudo o que queria era olhar-te a andar de pés descalços ao centro de um mundo que não soubemos guardar), a casa de banho com os teus produtos de limpeza, o teu perfume, o teu champô; estás em todo o lado, permaneces aqui deitada na cama onde me deito contigo, haja quem houver ao meu lado, todas as noites de todos os dias. E é quando te cheiro que acredito que até o nariz sabe o que é amor. 
Amo-te com todos os sentidos do meu corpo. 
Ainda me levanto a acreditar em nós. E se houver uma morte justa é um para o outro que morreremos. “E morreram felizes para sempre” é o que ainda espero da vida.
Não fiques convencida mas acho que és a minha morte favorita. 
Procuro-te em cada mulher que me procura, e em cada uma há um pedaço de ti, um sorriso aqui, uma expressão ali, e é assim que te amo aos pedaços, que te consumo às peças, desesperado e lento, em busca de sensações pequenas que juntas te tragam inteira. Amar é muitas vezes juntar fragmentos para conseguir um todo que não existe, que não voltará a existir, mas que ainda assim continua a existir e nunca deixará de existir. Não sei se é possível a vida depois de ti, mas sei que enquanto houver corpos que te tragam aos poucos vou conseguir aguentar. Volta para sempre ou nunca mais apareças. Imaginar que um dia voltas só me faz imaginar que um dia partes. E eu posso aguentar tudo menos outra vez as tuas costas a virarem, outra vez a sensação de que é possível um corpo ficar oco por dentro quando se perde um amor tão pesado. 
Posso aguentar tudo menos tu inteira a levares-me inteiro. 
Quero a vida toda a amar os teus braços. Quero as conversas sem sentido na cama antes de deitar, o prazer eterno de nos sabermos para sempre; e nada do que é material nos consegue tocar, porque o que nos junta são certezas e nenhuma dúvida sabe qual é a nossa morada. Sabes que és de mim como és da vida, e que por mais afastada que queiras estar só te encontras quando me pertences. Despeço-me de ti todas as noites, imagino-te no teu ritual de adormecimento (mãos entrelaçados como se pedisses ao céu que te desse mais um dia, só mais um dia, de vida para gozar), antes de te abraçares a um qualquer corpo que sabes que sou eu e que eu sei que somos nós. Quando estiveres farta de sofrer podes voltar. E até lá livra-te de não teres todos os orgasmos possíveis, para que regresses pura ao princípio do nosso tempo. 
Somos o orgasmo primordial sempre que regressamos aos corpos. 
E se a imortalidade existir já vem depois de nós."

Pedro Chagas Freitas


(Ficam estas palavras a bailar-me por dentro... Posso aguentar tudo menos tu inteiro a levares-me inteira.)

19 de junho de 2013

"Nunca mais acabas de partir
é um horror a tua viagem
para longe de mim, o teu
regresso a uma vida onde
não tenho lugar, o teu
regresso a um lugar onde
não faço sentido, a tua
infinita partida, os teus
despojos por todo o lado,
é um horror tu dentro de
todos os poemas."

Sarah Adamopoulos

15 de junho de 2013

"Sei das horas muito longas
como estradas de chegar a ti
Uma mão aberta em dedos
um cigarro a arder calado
o copo de um vinho triste
e música às voltas de mim
Sei um nome que já não és
como resto de língua antiga
ou os beijos que me davas
ou o gato que já morreu
Tinhas a boca em forma de dor
e as noites em letras de versos"

Nuno Camarneiro
in http://acordarumdia.blogspot.pt/2013/06/tarde.html

10 de junho de 2013

"Desejei-te ontem, de mais, e hoje também. Todos os dias são o mesmo dia quando te desejo assim. Só penso em ti. És inigualável. De olhos fechados consigo encontrar-te noutros corpos, mas só o teu amo de olhos abertos.

Quando te escrevo tu não foges das minhas páginas. Quando te escrevo tu ressuscitas a minha alma. Acompanho o teu sorriso de longe e de perto, meu príncipe das trevas, lindo. Guardo comigo o teu olhar e sei que te recordas do meu corpo a tentar convencer-te que o meu amor é inteiro, embora nunca o seja bastante. É bom desconfiar do amor porque ele às vezes é traiçoeiro, metamorfoseia-se em reles sentimentos, eras tu que mo dizias. 

Eu não concordo."

Pedro Paixão in Príncipe, Asfixia

8 de junho de 2013

PORQUE ME APETECE#26


"O drama de amar é não haver sucedâneos.
E tudo o resto sabe a merda. Porque houve o teu abraço, porque existe o teu cheiro. Amei-te para sempre mesmo que já não te ame. Ficou em mim a tarde em que pela primeira vez o nosso corpo (o teu arfar a mostrar-me que língua se fala no céu, a tua boca a mostrar-me o tamanho de um beijo), e a partir daí fiquei órfão de um corpo sempre que não fosse o teu corpo. E quando chegou o dia da despedida eu soube que tinha chegado o dia de para sempre. 
O drama de amar é não admitir a morte.
Há uma mulher a mais sempre que amo um corpo que não é o teu. E um homem a menos. Deito-me, aperto, espremo (o encaixe perfeito das tuas costas nos meus braços, o cheiro dos teus lábios no suor do meu pescoço). E até um orgasmo comprova a hipocrisia da carne. Despedi-me de orgasmos quando me despedi de ti. Já me deitei com tantas e é sempre o teu boa noite que me adormece. 
O drama de amar é só criar réplicas.
Tudo o que amo és tu. Uma boca, uma pele, um sexo. Tudo o que amo és tu. E não há mais perfeito oximoro do que "amor novo". Só o teu amor é novo. E não existe sucessão quando se reina assim. Amar-te é uma monarquia fascista, uma ditadura dentro de mim. O que vem depois de ti só vem depois de ti. Sempre depois de ti. A toda a hora depois de ti. O que vem depois de ti só vem depois de mim, e onde eu estou ou estou sozinho à tua espera ou estou sozinho contigo. Se existe amor é porque existes tu."
O drama de amar é amar-te."

Pedro Chagas Freitas

(É tão, mas tão isto... que até arrepia de tanto ser isto e pedir que não fosse nada disto!)

7 de junho de 2013

“Podias ter fodido tudo menos a ilusão. (...)
A maior filhadaputice do mundo é o fim de uma ilusão. (...)
Quando se fode a ilusão, está tudo fodido. (...)”

Pedro Chagas Freitas


(Um dia publico o texto todo. Mas hoje não, não se adequa. Hoje é só isto. Descobri que me fodeste a ilusão.)

5 de junho de 2013



Quisera eu entender.
Puderas tu perceber.
O porquê de a cor dos meus olhos
apenas combinar com a cor dos teus.

31 de maio de 2013

"Toca-me

conjuga um verbo que conheças
no presente do indicativo,
soletra-o na segunda pessoa
do singular ao meu ouvido,
dá-me qualquer coisa
que me pareça eterno."

José Rui Teixeira

29 de maio de 2013

"Passo a noite na madrugada do teu corpo. E os minutos não se contam pelo relógio, nem pelo passar das horas; entre mim e tu há um compromisso tácito de elevar o minuto à categoria de para sempre. Nada nos aparta o sonho senão a concretização desse sonho. Sabes: um dia acordei e não estavas e foi então (toda a minha pele já o sabia antes mas eu ainda só desconfiava) que percebi que acordar é um gesto contigo dentro. E deixei-me ficar, volta após volta, na cama, à espera de que voltasses de onde estavas, à espera de que me desses licença para acordar. Amamo-nos sem pedir licença e é por isso que o olhar de um transporta o “sim, permito” de que o olhar do outro precisa. Nesse dia não voltaste e eu aos poucos fui-me recordando de que tinha um corpo para alimentar, de que havia uma fome para saciar. Mas é a cabeça que manda no que sou. E estás por dentro de tudo o que penso como a água está por dentro do vinho. Estás-me como água no vinho – como uma impreterível necessidade, como uma desesperante precisão. Somo-nos água por dentro do vinho e toda a gente sabe que se tirares a água do vinho ficas com tudo – menos com vinho. E o corpo começou a ceder, e tu não vinhas, e o corpo queria comer e beber e aquelas coisas inúteis que são a madrugada quando a madrugada não é a do teu corpo. Doía-me tudo e mesmo assim tenho a certeza de que se chegasses tudo deixaria, nesse mesmo instante, de doer. E bastaria um beijo, um “desculpa o atraso”, um “amo-te para depois do que preciso”, para todo o corpo entrar na ordem necessária. É o teu corpo que organiza o meu, as tuas palavras que me ensinam as minhas. Não vieste. E a madrugada desfez-se e a noite chegou outra vez (nem me lembro se houve dia, sem ti nunca me lembro se chegou a haver dia). O meu corpo às voltas pela cama, o meu corpo à procura de parar. Onde está o teu corpo que preciso do meu?, perguntava, e não havia maneira de parar, as pernas choravam, os braços choravam, os olhos, até eles (que estranho), choravam. Fiquei a saber, nessa madrugada depois da madrugada em que não apareceste, que havia outras madrugadas no teu corpo, outros corpos a caminhar na tua madrugada; fiquei a saber que estaria, desde aí até hoje (até todos os hojes), impedido de acordar. É assim que agora, todos os dias, abro os olhos: com todo o cuidado, em silêncio, para não correr o risco de acordar. Morre uma pessoa sempre que acorda sem o corpo, sabias? O meu ainda subsiste, diz-se por aí que sempre às voltas, que sempre apeado de parar. Mas ainda à espera da tua madrugada. Ainda à espera de que chegues e digas “desculpa o atraso”, “perdoa-me mas enganei-me na madrugada”. Eu depois tocarei na tua cara como se sentisse o toque da vida e direi apenas que “todos temos o direito de nos equivocarmos nas madrugadas” e ainda que “todas as madrugadas são enganos passageiros”. E depois irei abrir-te os braços e dizer-te que somos uma madrugada só. E que tudo o que vem depois de nós é a noite. Há um compromisso tácito, lembras-te?, entre mim e tu: elevar o minuto à categoria de para sempre. E no meu minuto nada avança sem a tua permissão. Para sempre."

Pedro Chagas Freitas

(Ainda à espera da tua madrugada... para que te possa abrir os braços.)