"Se me esfolassem agora
encontrariam o teu nome
colado num dos meus ossos.
De mim continuariam a nada entender.
Quanto a mim, sei que sou teu."
Manuel Cintra
21 de maio de 2013
19 de maio de 2013
"desenha com a ponta dos teus dedos
as fronteiras exactas do meu rosto
as rugas os sinais a cicatriz que ficou da infância
o lento sulco das lâminas onde no peito
se enterra o mistério do amor
e diz-me
o que de mim amaste noutros corpos
noutras camas noutra pele
o que de mim amaste noutros corpos
noutras camas noutra pele
prometo que não choro mas repete
as palavras um dia minhas que sem querer
misturaste nas tuas e levaste
com as chaves de casa e os documentos do carro
as palavras um dia minhas que sem querer
misturaste nas tuas e levaste
com as chaves de casa e os documentos do carro
- e largaste sobre a mesa com o copo de gin a meio
na primeira madrugada em que me esqueceste"
Alice Vieira, in Dois Corpos Tombando na Água
18 de maio de 2013
13 de maio de 2013
Borbulhas-me nos poros.
Danças no sangue que me corre nas veias.
És o formigueiro na ponta dos meus dedos.
Apoderas-te do meu corpo sem pedir licença.
Moras-me dentro, sem apelo nem agravo.
Sem pagar renda. Sem sequer saber que lá moras.
Sou-te mais do que me sou, do que me sinto minha.
Moras-me dentro.
10 de maio de 2013
"Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor -
mesmo que no silêncio assustador
se fundam os lábios e o coração se rasgue de amor.
Onde a amizade nada pode
nem os anos da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.
Quem corre para o limiar é louco,
e quem o alcançar é ferido de aflição.
Agora compreendes porque já não bate,
sob a tua mão em concha, o meu coração."
Anna Akhmátova
encantamento e paixão não o podem transpor -
mesmo que no silêncio assustador
se fundam os lábios e o coração se rasgue de amor.
Onde a amizade nada pode
nem os anos da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.
Quem corre para o limiar é louco,
e quem o alcançar é ferido de aflição.
Agora compreendes porque já não bate,
sob a tua mão em concha, o meu coração."
Anna Akhmátova
8 de maio de 2013
"Vou guardar as tuas mãos na paixão que tenho por ti,
mas não te posso revelar o meu nome, nem precisas de o saber.
Chama-me o que quiseres, dá-me um nome para que possamos amarmo-nos.
Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui.
Pertencia a outra paixão, e já a esqueci.
Dá-me tu um nome para eu poder ficar contigo..."
Al Berto, in Lunário
mas não te posso revelar o meu nome, nem precisas de o saber.
Chama-me o que quiseres, dá-me um nome para que possamos amarmo-nos.
Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui.
Pertencia a outra paixão, e já a esqueci.
Dá-me tu um nome para eu poder ficar contigo..."
Al Berto, in Lunário
7 de maio de 2013
"A pele é o meu único limite
atravessa-a
onde a luz é mais forte
não feches lá fora o mundo
nem a mim cá dentro
mostra-me
que o sol no céu
é o sonho em mim própria
a realidade ardente
quando me mordes
e me fazes sentir
que não há diferença
entre lado de fora e lado de dentro
entre dor e carícia
pedra e palavra
porosa às tuas investidas
sou aquela que
se abre em desejo
de existir no mundo
em todo o lado e ao mesmo tempo
dá-me o que tens
de tudo
não exijo mais nada."
Pia Trafdup
atravessa-a
onde a luz é mais forte
não feches lá fora o mundo
nem a mim cá dentro
mostra-me
que o sol no céu
é o sonho em mim própria
a realidade ardente
quando me mordes
e me fazes sentir
que não há diferença
entre lado de fora e lado de dentro
entre dor e carícia
pedra e palavra
porosa às tuas investidas
sou aquela que
se abre em desejo
de existir no mundo
em todo o lado e ao mesmo tempo
dá-me o que tens
de tudo
não exijo mais nada."
Pia Trafdup
6 de maio de 2013
"Por um rosto chego ao teu rosto,
noutro corpo sei o teu corpo.
Num autocarro, num café me pergunto
porque não falam o que vai
no seu silêncio aqueles cujo olhar
me fala da solidão.
Esqueço-me de mim. Tão quieto
pensando na sua pouca coragem, a minha
sempre adiada. Por um rosto
chegaria o teu rosto, mesmo de um convite
ousado fugiria, esta mão conhece-te
e desenha no ar o hábito
por que andou antes de saíres
do espaço à sua volta. Estás longe,
só assim podes pedir algumas horas
aos meus dias. Sem fixar a voz
a tua voz é uma corda, a minha
um fio a partir-se."
Helder Moura Pereira in De Novo as Sombras e as Calmas, Lisboa: Contexto 1990
noutro corpo sei o teu corpo.
Num autocarro, num café me pergunto
porque não falam o que vai
no seu silêncio aqueles cujo olhar
me fala da solidão.
Esqueço-me de mim. Tão quieto
pensando na sua pouca coragem, a minha
sempre adiada. Por um rosto
chegaria o teu rosto, mesmo de um convite
ousado fugiria, esta mão conhece-te
e desenha no ar o hábito
por que andou antes de saíres
do espaço à sua volta. Estás longe,
só assim podes pedir algumas horas
aos meus dias. Sem fixar a voz
a tua voz é uma corda, a minha
um fio a partir-se."
Helder Moura Pereira in De Novo as Sombras e as Calmas, Lisboa: Contexto 1990
4 de maio de 2013
(...)
...tudo o que eu gostaria de ter aqui está tão longe, não sei aonde, está longe o amor que às vezes esperava. E não virá...
Consolo a minha saudade com fotografias tuas. Mas sei que há muito se apagaram os sorrisos do teu rosto.
Envelhecemos separados, tenho pena, agora já é tarde, estou cansado demais para as alegrias dum reencontro. Não acredito na reconciliação ainda menos no sorriso que fizeste para as fotografias...
(...)
Al Berto, in Diários, edição Assírio, 2012
(Já eu, não me consolo com fotografias tuas, até porque nem as tenho, mas também não acredito em nada que venha de ti.)
(Já eu, não me consolo com fotografias tuas, até porque nem as tenho, mas também não acredito em nada que venha de ti.)
3 de maio de 2013
1 de maio de 2013
“Ao mesmo tempo que já não te amo não amo mais nada, só a ti, ainda.
Continua também esta exaltação que me vem por não saber o que fazer disto, deste conhecimento que tenho dos teus olhos, das imensidades que os teus olhos exploram, por não saber o que escrever sobre isso, o que dizer, e o que mostrar da sua insignificância original. Disso, sei apenas o seguinte: que já não posso fazer nada a não ser suportar esta exaltação a propósito de alguém que estava ali, de alguém que não sabia que vivia e de quem eu não sabia que vivia, de alguém que não sabia viver dizia-te eu, e de mim que o sabia e que não sabia que fazer disso, desse conhecimento da vida que ele vivia, e que também não sabia que fazer de mim.
É assim que permaneces face a mim, na doçura, numa provocação constante, inocente, impenetrável.
Esta noite chove. Chove em volta da casa e sobre
o mar também. O filme vai ficar assim, como está. Não tenho mais imagens para
lhe dar. Já não sei onde estamos, em que fim de que amor, em que recomeço de
que outro amor, em que história nos perdemos. Sei apenas quanto ao filme.
Apenas quanto ao filme, sei, sei que nenhuma imagem mais poderia prolongá-lo.
Já não te amo como no
primeiro dia. Já não te amo. No entanto continuam em volta dos teus olhos,
sempre, estas imensidades que rodeiam o olhar e esta existência que te anima no
sono.
Continua também esta exaltação que me vem por não saber o que fazer disto, deste conhecimento que tenho dos teus olhos, das imensidades que os teus olhos exploram, por não saber o que escrever sobre isso, o que dizer, e o que mostrar da sua insignificância original. Disso, sei apenas o seguinte: que já não posso fazer nada a não ser suportar esta exaltação a propósito de alguém que estava ali, de alguém que não sabia que vivia e de quem eu não sabia que vivia, de alguém que não sabia viver dizia-te eu, e de mim que o sabia e que não sabia que fazer disso, desse conhecimento da vida que ele vivia, e que também não sabia que fazer de mim.
Estou num amor entre
viver e morrer. É através desta ausência do teu sentimento que reencontro a tua
qualidade, essa, precisamente, de me agradares. Penso que apenas me interessa
que a vida não te deixe, outra coisa não, o desenvolvimento da tua vida
deixa-me indiferente, não pode ensinar-me nada sobre ti, só pode tornar-me a
morte mais próxima, mais admissível, sim, desejável.
É assim que permaneces face a mim, na doçura, numa provocação constante, inocente, impenetrável.
E tu não sabes.”
Marguerite Duras, O Homem Atlântico
(É assim... E tu não sabes... Não sabes mesmo.)
(É assim... E tu não sabes... Não sabes mesmo.)
25 de abril de 2013
19 de abril de 2013
15 de abril de 2013
“Para te ver bastava fechar os olhos com força e eras outra vez tu, igual a ti própria. O abismo entre querer-te e ter-te afundava-me. A doce paz de te sonhar trazia consigo uma discórdia infinda, de mim para comigo. Não sabia onde estavas, com quem, de que maneira. É normal que já não se entendesse o que nos unia, se nem eu já era capaz desse esforço. O amor tornara-se uma forma de tortura recíproca.”
Pedro Paixão in Fatalidade, O mundo é tudo o que acontece
14 de abril de 2013

Para onde vais quando fechas os olhos? Quando descansas a cabeça em outras almofadas, deitado em outras camas, com outros lençóis a cobrirem-te o corpo.
Para onde vais quando fechas os olhos? Quando te abraçam outros braços e te beijam outros lábios.
Para onde vais quando fechas os olhos? Quando te abraçam outros braços e te beijam outros lábios.
Diz-me. Para onde vais? Em que pensas? Quando fechas os olhos?
Não, não me digas. Não quero saber. Não me interessa.
Sonhas? Viajas? Diz-me... ou fecha-me os olhos.
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