10 de abril de 2013


Calo cá dentro o que grito de boca fechada.
Amarro as letras uma a uma para que não me saiam disparadas e sem pedir licença.
Se me olharem nos olhos, vêem-nas amordaçadas. Querem sair e eu engulo-as, mais uma vez.
Não é difícil ler-me, não assim, quando me entupo de letras e palavras e pontuações e acentos.
Vejo-as desenhadas na pele. Provocam sulcos. Querem ar.
Toda eu sou frases, prosa, poema, verso... À espera de se cravarem em papel.

7 de abril de 2013


Não sei se te posso dizer, mas ainda me bates no peito.
Cada vez que piso o caminho que te leva para fora, parece que o sentes.
Sinto no peito uma batida tão forte que me corta a respiração, tipo desfibrilador.
Quase diria que pensas que nos entretantos em que piso outro caminho, que morro, e que os teus choques me devolvem a vida ou a suposta lucidez.
Quase diria que me avisas a que não te esqueça. 
Quase diria que assim me mantens tua sem, no entanto, me quereres.
Quase. Mas não digo.
Não te digo.
Que me bates no peito. Ainda.

6 de abril de 2013

"At the frontier of the skin no dogs patrol. That was it. At the frontier of the skin. Where I end and you begin. Where I cross from sin to sin. Abandon hope and enter in. And lose my soul. At the frontier of the skin no guards patrol.

At the frontier of the skin mad dogs patrol. At the frontier of the skin. Where they kill to keep you in. Where you must not slip your skin. Or change your role. You can't pass out I can't pass in. You must end as you begin. Or lose your soul. At the frontier of the skin armed guards patrol."

Salman Rushdie, The Ground Beneath Her Feet

30 de março de 2013

27 de março de 2013

Diz que o Mundo é pequeno.
Diz que quem procura, acha.
Diz que quem espera sempre alcança.
É, diz que sim. E diz muito mais coisas.

Por vezes na pequenez do Mundo, nem uma girafa se encontra.
Se quem espera sempre alcança, porque razão haveria de procurar?
Ou se quem procura, acha, porque razão haveria de esperar?
Se fosse assim tão simples e eficaz, não haveriam metade dos poemas de amor e
eu, muito provavelmente, não estaria aqui a escrever parvoíces.
É, diz que sim, diz.

25 de março de 2013

Nos meus momentos mais quietos, bailas-me por entre os pensamentos.
São segundos em que te afasto com um abanar de cabeça e um retomar da realidade, como se me fosses viral.
São segundos que parecem horas, em que te vejo sorrir-me, em que rimos juntos, em que nos amamos, em que a tua mão está na minha e o meu espaço preenchido por ti e o teu por mim...
Segundos. E eu afasto-te. Ou tento. Pelo menos.
Não sei ver-te como realmente és. Vejo-te toldado pelo que sinto, pelo que me fizeste sentir.
Jamais te imaginaria assim... tão longe do que me foste.

23 de março de 2013

A linha com que me coseste perdeu a cor.
A pele que me coseste perdeu a linha.
As costuras perderam a pele.
A pele. As costuras. A linha.
Confundem-se. Num todo perdido.

É tudo pele. Cheiro. Toque. Som.
Gemido. Grito,
Luxúria. Desejo. Amor.
Tudo se confunde. Tudo num todo.

Eu. Tua.
Tu. Meu.
Perdidos no todo que se confunde com tudo.

19 de março de 2013

Talvez a casa esteja maior, sinto-a mais ampla.
Talvez porque as paredes a alargaram.
Talvez porque sinto o coração mais leve.

Talvez.

18 de março de 2013

"Quero que saibas 
uma coisa. 

Sabes como é: 
se olho 
a lua de cristal, o ramo vermelho 
do lento outono à minha janela, 
se toco 
junto do lume 
a impalpável cinza 
ou o enrugado corpo da lenha, 
tudo me leva para ti, 
como se tudo o que existe, 
aromas, luz, metais, 
fosse pequenos barcos que navegam 
até às tuas ilhas que me esperam. 

Mas agora, 
se pouco a pouco me deixas de amar 
deixarei de te amar pouco a pouco. 

Se de súbito 
me esqueceres 
não me procures, 
porque já te terei esquecido. 

Se julgas que é vasto e louco 
o vento de bandeiras 
que passa pela minha vida 
e te resolves 
a deixar-me na margem 
do coração em que tenho raízes, 
pensa 
que nesse dia, 
a essa hora 
levantarei os braços 
e as minhas raízes sairão 
em busca de outra terra. 

Porém 
se todos os dias, 
a toda a hora, 
te sentes destinada a mim 
com doçura implacável, 
se todos os dias uma flor 
uma flor te sobe aos lábios à minha procura, 
ai meu amor, ai minha amada, 
em mim todo esse fogo se repete, 
em mim nada se apaga nem se esquece, 
o meu amor alimenta-se do teu amor, 
e enquanto viveres estará nos teus braços 
sem sair dos meus."

Pablo Neruda, in "Poemas de Amor de Pablo Neruda"

16 de março de 2013

"Through your lens the sequoia swallowed me
like a dryad. The camera flashed & forgot.
I, on the other hand, must practice my absent-
mindedness, memory being awkward as a touch
that goes unloved. Lately your eyes have shut
down to a shade more durable than skin's. I know you
love distance, how it smooths. You choose an aerial view,
the city angled to abstraction, while I go for the close
exposures: poorly-mounted countenances along Broadway,
the pigweed cracking each hardscrabble backlot.
It's a matter of perspective: yours is to love me
from a block away & mine is to praise the grain-
iness that weaves expressively: your face."


Alice Fulton, "Yours & Mine"

14 de março de 2013

"mas já me doem as veias quando te chamo
o coração oxidado enjaulou a vontade de te amar
os dedos largaram profundas ausências sobre o rosto
e os dias são pequenas manchas de cor sem ninguém


ficou-me este corpo sem tempo fotografado à sombra da casa
onde a memória se quebra com os objectos e amarelece no papel
pouco ou nada me lembro de mim
em tempos escrevi um diário perdido numa mudança de casa
continuo a monologar com o medo a visão breve destes ossos 

suspensos no fulcro da noite por um fio de sal"

Al Berto, in O Medo

11 de março de 2013

"Nosso amor é impuro 
como impura é a luz e a água 
e tudo quanto nasce 
e vive além do tempo. 

Minhas pernas são água, 
as tuas são luz 
e dão a volta ao universo 
quando se enlaçam 
até se tornarem deserto e escuro. 
E eu sofro de te abraçar 
depois de te abraçar para não sofrer. 

E toco-te 
para deixares de ter corpo 
e o meu corpo nasce 
quando se extingue no teu. 

E respiro em ti 
para me sufocar 
e espreito em tua claridade 
para me cegar, 
meu Sol vertido em Lua, 
minha noite alvorecida. 

Tu me bebes 
e eu me converto na tua sede. 
Meus lábios mordem, 
meus dentes beijam, 
minha pele te veste 
e ficas ainda mais despida. 

Pudesse eu ser tu 
E em tua saudade ser a minha própria espera. 

Mas eu deito-me em teu leito 
Quando apenas queria dormir em ti. 

E sonho-te 
Quando ansiava ser um sonho teu. 

E levito, voo de semente, 
para em mim mesmo te plantar 
menos que flor: simples perfume, 
lembrança de pétala sem chão onde tombar. 

Teus olhos inundando os meus 
e a minha vida, já sem leito, 
vai galgando margens 
até tudo ser mar. 
Esse mar que só há depois do mar."

Mia Couto, in "idades cidades divindades"

(O nosso amor é impuro. E talvez seja por isso que não me sais de dentro.)

10 de março de 2013

"love is more thicker than forget
more thinner than recall
more seldom than a wave is wet
more frequent than to fail


it is most mad and moonly
and less it shall unbe
than all the sea which only
is deeper than the sea


love is less always than to win
less never than alive
less bigger than the least begin
less littler than forgive


it is most sane and sunly
and more it cannot die
than all the sky which only
is higher than the sky"

E.E. Cummings, “[love is more thicker than forget]” from Complete Poems 1904-1962

7 de março de 2013

"tenho uns caixõezinhos no coração que me
nasceram quando partiste, se regados com
cuidado, brotam mortos como flores negras pelo
interior das veias, que me assombram o sangue, corando
a minha pele numa vergonha e sentindo medo

são uns mortinhos pequenos que muita gente
nem sabe que existem. acreditar em fantasmas é
só possível para quem tem muito amor e recusa a
pequenez da vida sem continuação

tenho uns caixõezinhos no coração que se
abrem a toda a hora. quando me deito, ouço-os
embatendo de encontro ao peito, talvez com vontade
de ir embora, talvez só por ser o amor tão estreito"


valter hugo mãe in Contabilidade

6 de março de 2013

"...in this room
the hours of love
still make shadows."

Charles Bukowski in The Pleasures of the Damned

5 de março de 2013

"when the phone rings
I too would like to hear words
that might ease
some of this."

Charles Bukowski in Love is a Dog from Hell

1 de março de 2013

O amor que te sinto

                           rebenta-me as arestas da pele.

28 de fevereiro de 2013

Deixaste marcas no meu corpo.
Quanto mais o olho, mais sinto que há muito que deixou de me pertencer.
Preciso que mo devolvas. Que lhe tires a etiqueta. Que o laves na máquina e o ponhas a secar.
Devolve-mo dobrado e passado. Sem cheiro a ti. Sem que olhe para o ombro e me lembre de um beijo. Sem que olhe para a perna e me lembre das tuas mãos. Sem que mexa nos lábios e sinta a tua língua. Sem que penteie os cabeços e me lembre do carinho.
Sou tão tua que sem as marcas de ti, não seria eu.

26 de fevereiro de 2013

As tuas cores eram sangue e fogo.
O teu cheiro maresia povoado de neblina.
Nas mãos trazias o ondular das árvores no outono e no sorriso o pôr do sol num abraço. 
Vi-te por dentro, onde melhor te sei. Nas dobras da pele.
Devorei-te em cada som que emitiste na pauta do desejo e perdi-me no momento em que fechei os olhos de êxtase. 
Eras sonho bordado no meu olhar de menina, que me ficou em gota no negro das pestanas.